
Recentemente fiz um exercício que me fez repensar completamente a narrativa da minha vida. O exercício parecia simples: fazer uma autobiografia. Algo que, muito provavelmente, eu já fiz anteriormente. A diferença é que, quando eu li o texto, tive uma surpresa daquelas!
Foi a primeira vez, em não sei quanto tempo, que a lente principal sobre a minha própria vida já não era mais de dor. Quem guiou minhas palavras já não eram mais as perdas, os abandonos e a luta. Eu narrava minha vida como um manifesto de vivência e não de sobrevivência. A história já não era mais um conto de drama e tragédia. E, sinceramente, não era mais um roteiro motivacional de superação. Minha autobiografia era um manifesto de compromisso com a minha existência e protagonismo da minha própria história.
E foi a primeira vez que a lente da dor já não era mais a lente principal. Eu já não citava as tragédias com a materialidade do sentimento cortando a carne e possuindo a ponta da caneta. Quem falava ali era a consciência por trás de tudo. A coerência de quem não sucumbiu. Essa versão que conduziu a caneta decidiu que a dor já não teria papéis tão importantes.
Somos ensinados pela lógica do capital e pela moral religiosa que o triunfo vem do caminho das pedras. Que só no sofrimento existe a redenção. Posso supor que você aí do outro lado suporte as dificuldades acreditando que além do arco-íris existe o pote de ouro. Primeiro o dever, depois a diversão.
Isso não quer dizer que o movimento de causa e efeito seja uma grande balela. Acredito que a bonança realmente chegue após períodos de dificuldade. Se a dor te desafia, você pode se superar e chegar lá. Faz sentido.
Mas o chamado aqui, minha leitora, é refletir sobre quando, na ânsia de alcançar algo ou ser algo, o hábito de escolher o difícil e o problemático apareça como um caminho único e louvável. Pode parecer loucura, mas há muitas vidas por aí que inconscientemente escolhem sempre a alternativa mais difícil.
Por isso é tão importante se questionar o que tem por trás das ações, dos desejos e das escolhas. Será que o “arquétipo da sobrevivente” também não é algo que você repete sem questionar?
Nós aprendemos que o caminho mais fácil é atalho. Os mitos e narrativas que ouvimos desde cedo confirmam isso e estão impregnadas no chamado “inconsciente coletivo”. Voltemos aos contos e à literatura. Na história dos Três Porquinhos, o porquinho que fez a casa de palha foi considerado um grande preguiçoso e, como consequência disso, sua punição foi ter a casa derrubada pelo lobo mau.
Já no conto da Chapeuzinho Vermelho, a menina quase foi engolida porque, naquele dia, se permitiu escolher diferente. Curiosa e instintiva, decidiu rasgar o roteiro. Parecia mais fácil e divertido. Foi punida. Quase morta.
Já nas histórias adultas, trago o exemplo do livro Dom Quixote. Há uns anos, quando tive contato com a obra, registrei em um caderninho uma frase que, na época, me levou a um lugar profundo de identificação. Anotei cada palavra como quem guardava um grande aprendizado: “meu repouso é na batalha”.
Essa simples frase me fez reforçar durante anos da minha vida a “lógica da peleja” e o romantismo da dificuldade. Como se, para sair vitoriosa, eu devesse escolher o caminho de quem suporta. Acreditava no que me fora imposto: vencer as batalhas e as guerras da vida deveriam ser o meu “modus operandi”.
Vencer, suportar, aguentar, resignar… Todas essas palavras carregam a mesma raiz simbólica: a de quem aprende a existir contra algo, nunca por algo. Todas vêm de um mesmo universo de esforço, peso e renúncia. A lógica de que viver é suportar.
Não é da noite pro dia que a troca de lentes acontece. Sair do corpo da sobrevivente para o corpo de quem “viceja” — como Clarissa Pinkola traz no livro Mulheres que correm com os lobos — exige primeiro o cuidado com o que doeu. O acolhimento da vulnerabilidade. Para então aprender a ser feliz, a ter viço. Não uma felicidade vendida com uma linearidade onde só o gozo, o prazer e a alegria participem. Mas uma felicidade que nasce aprendendo a dançar com o tempo, reconhecendo o presente. Observando o que está disponível. E, principalmente, na percepção de que uma vida valorosa também tem angústias.
Quem me disse essa frase foi minha psicóloga. Em uma daquelas sessões difíceis, onde a rigidez aparece mais do que eu gostaria, fiz um “recap” da minha vida. Olhei para todos os lados e disse, em alto e bom som, que naquele momento eu não deveria estar sofrendo. Um verdadeiro tribunal sentimental definindo como e pelo que eu deveria me angustiar. E ela sabiamente me disse: a vida valorosa também produz angústias.
E o que mudou foi justamente o fato de que não, eu não quero mais pelejar para viver. Eu escolhi permitir o fácil e o leve. Sem demagogia, sem meritocracia, sem positividade tóxica. Apenas com consciência de caminho, muita crítica a padrões que eu herdei e, mais do que isso, responsabilidade sobre minhas escolhas.
Eu decidi romper com um ciclo que começou muito antes da minha estreia nesse mundo. Eu disse não para a continuidade. E claro, não posso impedir que as tragédias e as tristezas me alcancem, porque eu sei que vão. A grande certeza é sempre a impermanência.
O maior aprendizado disso tudo é saber que as dores vão nos encontrar. Mas elas não precisam controlar nosso volante. Elas não devem ser o orador principal. Elas não precisam ser a única que aparece e pela qual nós nos orgulhamos.
Acredito que pensar no dia da morte nos ensina muito. Penso nas palavras que gostaria que fossem pronunciadas sobre seu corpo frio e cercado de flores. “Guerreira”, “Lutou, agora vai descansar”, “Foi boa demais pra todo mundo”. Tudo isso me arrepia. Eu prefiro: “Foi fiel a si mesma.” “Soube viver.” “Espremeu a vida até a última gota”.
Algumas dores são inevitáveis. Outras são fabricadas. Como diz sabiamente Clarice Lispector: “Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso, nunca se sabe qual sustenta o edifício inteiro”.
O convite hoje é analisar com profundidade o que do seu sofrimento atual é uma imposição ou uma escolha. O que é uma prisão pelo “caos conhecido”. E principalmente o reconhecimento da necessidade de deixar aquela que luta para trás. Porque quem passa tempo tentando sobreviver não tem força para se desenvolver.
O script da luta pode sim ser rompido, porque ele é uma identidade. E a identidade é uma narrativa, uma história que contamos para nós mesmas. Uma performance que pode vir de vozes externas e não exatamente da escolha de um roteiro que é nosso.
Hoje eu te convido a fazer o mesmo exercício, uma autobiografia… Olhe com honestidade para a lente que você coloca na sua narrativa e se pergunte: “De quem é a caneta quando você conta sua história?”
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