Eu ouvi essa frase uma vez, não sei onde nem por quem. O fato é que essas palavras, na época, me tocaram profundamente. Lembro-me de estar atravessando um dos momentos mais difíceis e confusos da minha vida, em que a incerteza, o medo, o caos e a insegurança eram tão colados a mim que pensei que seríamos um só para o resto da vida. Eu estava vivendo um ano 9, dentro de um retorno de Saturno, acompanhada de uma profunda frustração profissional que se tornou um episódio pavoroso de burnout e depressão. O cenário era caótico, e eu realmente não tinha ideia de onde tirar esperança.
Essa frase me atravessou como um raio de sol que aproveita a brecha da cortina pra entrar em casa. Talvez, na época, eu tenha até achado graça ao me imaginar nessa situação: segurando uma vassourinha, tentando exaustivamente conter as folhas que me rodeavam em meio a uma ventania. Se quisermos ir um pouco mais fundo, podemos associar as folhas às ilusões que caíam na minha frente. O ano 9 chega com o fechamento de ciclos e, na natureza, esse é o momento em que as árvores soltam suas folhas para assumirem uma nova roupagem. O que eu precisei assimilar (e que não foi fácil) é que o agir nem sempre é externo. A ação nem sempre vem das mãos. A subjetividade e a reflexão também são ferramentas poderosas. E que sim, pausa também é movimento.

Futuramente, uma carta estranha e curiosa do tarot me trouxe uma compreensão ainda mais profunda sobre isso. O arcano XII (o Enforcado ou Dependurado) tem os seguintes elementos: um homem está virado de cabeça pra baixo, com os pés presos por uma corda, e tem sua cabeça coroada por uma luz brilhante. A mensagem desse arcano é crua e direta: para trazer luz à sua consciência é necessário se virar de cabeça pra baixo. Às vezes essa é a forma que a vida encontra de fazer você ver as coisas por outra ótica. Ela prende seus pés e te coloca numa posição desconfortável. É justamente na pausa e na instabilidade que você é colocado para repensar, refletir, reavaliar. O Enforcado não pode se mexer, não pode caminhar, não pode pegar uma vassoura. Ele precisa da inércia. O caminhar ali é interno.
Se, assim como eu naquela época, você acredita piamente que a única forma de lidar com os seus problemas é ativando o modo “resolvedora”, há uma coisa que ninguém te conta sobre esse comportamento: ele não é o pulo do gato para todos os seus problemas. Eu sei – e como sei – que agir assim em outros episódios, te trouxe grandes oportunidades, resultados e colheitas, mas ele não é a fórmula mágica para lidar com todos os desafios.
Se a vida está uma loucura, se o chão sob seus pés se abriu, se algo que era certo ruiu, se um sonho ou objetivo foram quebrados, distanciados e até mesmo desacreditados por você, não é hora de pegar uma vassoura e tentar conter as folhas que sobrevoam a sua cabeça. É hora de sentar, observar, refletir, sentir… e, sim, aceitar.
Nessa época, eu esbravejava aos quatro ventos: “Mas eu faço de TUDO pra ficar bem, pra passar, pra melhorar!!!!”, como se todo o meu esforço pra atravessar uma dificuldade não estivesse sendo recompensado pela vida. Eu lidava com a ventania de forma prática. Acreditava que juntar as folhas, colocar dentro de um saco e jogar no lixo era o que eu precisava fazer, custe o que custar. Aceitar e observar? De jeito nenhum. Com isso, o sentimento de injustiça tomava conta de mim constantemente, e eu seguia obcecada por viver experiências que me ajudassem a sair daquele estado, quando na verdade, eu deveria me preocupar em como conviver com ele.
Eu queria que meus movimentos me fizessem sair do caos. Eu queria um resultado. Demorou muito tempo até que eu entendesse que mesmo fazendo terapia, tomando remédio, buscando uma taróloga vez ou outra, estudando astrologia, numerologia, lendo um milhão de livros sobre o poder da mente, do agora e do depois, algumas coisas são a cargo do tempo. O rei de tudo. E o tempo, só ele, é capaz de acalmar as folhas e deixá-las no chão. E, enquanto você fica dependurada, impossibilitada do movimento externo, incapacitada de trazer a ação pra fora, o convite é interno.
O chamado é para que, na inação, você se ilumine de consciência. Que aproveite esse momento para se ver de outra forma. Ver seus sonhos, seu futuro, seus objetivos por uma nova perspectiva, porque, definitivamente, se você foi colocada assim, algo precisa ser revisto para, enfim, ser concretizado. E, se durante a ventania você buscar intervenção, quanta energia terá quando as folhas finalmente estiverem prontas pra serem varridas? O quão consciente estará na hora de recolher e agir? O quão pronta estará na hora certa? É preciso saber qual movimento a vida tem te pedido e usar isso a seu favor: se é pra fora ou se é pra dentro
Repita pra si mesma: não adianta varrer se estiver ventando.
Ana Carolina Braga
02/09/2025

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