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Lições de camarim com Maria Bethânia e Gal Costa.

Recentemente me lembrei de uma história que não é minha nem sua, mas poderia ser. Quando algo rodeia minha cabeça por várias vezes consecutivas, tiro um tempo pra olhar essa repetição. Sei que ela tem algo a me dizer. Acredito que uma das melhores formas de atravessar a existência é estar atenta ao que acontece. Olhos abertos o suficiente para enxergar o que precisa de atenção, mas não esbugalhados a ponto de não poder se distrair com bobagens de vez em quando.


Certa vez, Letrux, uma artista excêntrica que admiro muito, contou em uma entrevista sobre o dia em que encontrou Maria Bethânia no camarim, após um show. Fã declarada da gigante filha de Iansã — toda a força guardada em seus 1,53 de altura — ela se emocionou com o encontro. Quando decidiram registrar o momento com uma foto, Letrux, com seus 1,85, instintivamente se curvou para ficar à altura de Bethânia.

Aos olhos de quem vê de fora, pode parecer um gesto de delicadeza e de respeito. Mas Bethânia, uma mulher atenta, interveio nessa tentativa de curvatura e disse: “Não, não. Fique do seu tamanho.” Letrux comentou em entrevista que nunca mais foi a mesma depois desse dia. Eu também não.

Essas palavras me atravessam, me embolam, me bagunçam, me colocam de pé. Fique. Do seu. Tamanho. Digo pausadamente: fique do seu tamanho. Qual é o meu tamanho? Qual é o seu tamanho?

Nós, mulheres, fomos historicamente convidadas (leia-se: obrigadas) à sutileza. À delicadeza. Ao não-incômodo. Ao não reconhecimento de si mesma. E, principalmente, à obediência. Uma mulher que contraria a norma está sujeita a passar por retaliações cruéis.

Por isso é tão difícil não só se descobrir, mas também reconhecer o próprio tamanho. Para além do corpo, esse silenciamento mora na nossa memória. Por mais progressista que você se considere, vez ou outra vai esbarrar na impostora que mora dentro de você, dizendo: “Quem você pensa que é?”

E, se — assim como eu — você cresceu em um lar cristão, precisamos encostar também na parte moral da nossa construção. Aprendemos que a humildade é o máximo grau de evolução de um ser humano e cultivar essa virtude deve ser um compromisso constante. Quero deixar claro a você, minha leitora, que não estou aqui para criticar essa busca, e sim para apontar onde ela pode nos limitar.

 A humildade é um espectro, não se restringe a um só significado. Mas basta uma breve pesquisa para ver como as definições costumam partir de: fraqueza, acatamento, submissão, modéstia e simplicidade. Essas características são exatamente o que esperam de uma mulher e não é coincidência.

Estou há quase dez anos estudando, pesquisando e me aprofundando em temas relacionados à construção da mulher na sociedade. Tudo isso me fez romper barreiras internas e externas de maneira profunda e, ainda assim — posso te afirmar com certeza — sigo tropeçando.

Passei parte da minha vida entre o movimento de luz e sombra. Busquei estar na luz diversas vezes e, logo depois, voltei pra sombra. Questionava o meu desejo. Me encolhia e até mesmo me julgava carente por desejar estar à altura de mim mesma.

Todas as vezes que buscava me esconder, preferindo a sombra, acreditava que esse aspecto fosse a minha força — e, de fato, ele tem muito a oferecer. Mas entendi que, na verdade, eu estava me boicotando. Eu estava, mais uma vez, escolhendo a modéstia.

Por diversas vezes, essa foi a história perfeita que minha cabeça criou para justificar o meu medo de ser grande.


“Eu sou mais discreta mesmo.”
“Esse lado prefiro não mostrar.”
“Vou deixar esse pensamento como privilégio pra quem convive comigo.”
“Vai soar arrogante e prepotente.”
“Vão pensar que estou me achando demais.”

É muito fácil cair nessa armadilha. Ela se encaixa tão bem aos modelos que foram criados pra nós.

Em outra ocasião, essa entrevista já havia mexido comigo. Na época, eu poderia jurar que já estava no meu tamanho máximo. E talvez estivesse mesmo pra pessoa que eu era. Mas, de lá pra cá, fiquei visivelmente maior. E, dessa vez, quando essas palavras caíram no meu colo — ou melhor, no meu feed — foi avassalador, porque percebi que não — eu não estava do meu tamanho. Assim como sei que, muito provavelmente, você também não está no seu.

Reconhecer o próprio tamanho exige muito: ser grande assusta, dá medo. Tomar posse da inteireza e do poder incomoda, contraria a norma. Não se curvar pra caber na foto ou na vida é desobedecer. É assumir o risco de ser rotulada e julgada de tantas maneiras,  que até mesmo atenta e consciente, cheguei a acreditar que eu deveria ser mais humilde. 

Armadilha pura. Arapuca daquelas bem sedutoras, que te fazem acreditar que você é muito superior por não desejar ir além. Tentam te iludir dizendo que você tem até mais valor que as outras — justamente aquelas que estão fazendo o trabalho sujo de abrir o matagal, desobstruindo o caminho para que você passe depois, quando finalmente descobrir o seu tamanho.

A sociedade se beneficia desse discurso da modéstia nas mulheres. Quanto menor nós nos percebermos, mais fácil será nos distrair. Mais fácil será inventar novos procedimentos e delírios de consumo que te desviam de um caminho de maior compreensão sobre si mesma.

Quanto mais você se preocupar com o externo, menos tempo sobrará para sua lapidação interna. Quanto mais obediente você parecer ao mundo externo, mais fácil será te controlar e domesticar. E uma mulher domesticada, definitivamente, não consegue acessar o seu próprio tamanho.

E não foi só com Bethânia. Em outra ocasião, também no mundo da música — mais uma vez misturando artistas de gerações diferentes —, algo parecido aconteceu. Marina Sena, uma das grandes vozes da nova cena, encontrou sua musa maior, Gal Costa, em um camarim. Gal contou que vinha assistindo às últimas apresentações de Marina e percebeu que ela sempre prendia o cabelo para cantar.

Ela, muito consciente do seu próprio processo, disse que tinha medo de soltar o cabelo porque sabia que ali tinha muito poder. E Gal, disruptiva assim como Bethânia, respondeu: “Mas a gente nasceu pra isso mesmo. Pra ter poder.”

Eu quero que você pare AGORA e se questione: alguém, em toda a sua vida, já te disse que você nasceu pra ter poder? Que você nasceu pra descobrir e assumir o seu próprio poder? Nos falam tanta coisa! Determinam papéis, empurram sonhos garganta abaixo, impõem como devemos viver e experimentar a vida. Mas, sinceramente, ninguém nos encoraja a buscar e sustentar o nosso próprio poder. É subversivo demais. Viraria o mundo de cabeça pra baixo. Um brinde à Gal e Bethânia.

Por isso é preciso, constantemente, se questionar sobre a origem das vozes internas que falam conosco. Àquelas que ditam regras, julgam escolhas, ridicularizam sonhos. Sempre que você acessar um lugar sutil dentro de si, uma brasa prestes a virar chama e, logo depois, jogá-la para escanteio, pergunte: “Que voz é essa? Vem da sua família? Da religião? Da sociedade? Quem está te impedindo de descobrir seu tamanho?”

Jung diz uma frase brilhante que levo como mantra pra minha vida: “O mundo vai te perguntar quem você é, e se você não souber, ele lhe dirá.” Se você não tiver uma identidade forte e autêntica o suficiente para sustentar a si mesma e seus verdadeiros desejos, o mundo vai te dar uma régua de um tamanho qualquer. E você vai continuar se medindo a partir dela.

E vai jurar que aquele tamanho está ótimo pra você. Talvez até agradeça. Uma régua que não é verdadeira, mas que, por falta de uma compreensão mais profunda sobre si mesma, você acreditou que te media direitinho.

Como descobrir seu próprio tamanho? Não posso afirmar com certeza, porque também estou descobrindo o meu. Mas posso te garantir: eu não sou do tamanho que querem que eu seja. E você também não precisa ser.

Comece questionando tudo ao seu redor. Olhe pra si mesma agora e se pergunte: o que de mim hoje é verdadeiramente meu? O que eu faria ou quem eu seria se ninguém estivesse me olhando? Se eu não tivesse tanto medo de ser rejeitada, ridicularizada e julgada? O que, hoje, na sua vida, é 100% sobre você?

Você também pode se entusiasmar em descobrir qual é o seu trono. Assumir o seu poder. Controlar o seu próprio guidão. Jogar o ombro pra trás e ver de que tamanho você fica quando olha pro mundo sem tanta obediência, sem tanto pisar em ovos. Observe quem fica. Essa parte é ótima.

Você não vai descobrir o seu tamanho de hoje pra amanhã. Mas posso te garantir: quanto mais crescer, mais nítido vai ficar o quanto suas possibilidades são infinitas. Quanto maior você se reconhecer, maior dá pra ficar. 


Talvez te pareça cansativo demais todo esse movimento, mas posso te garantir: é muito melhor se cansar sustentando a si mesma do que passar uma vida inteira domesticada, aprisionada a desejos que não são seus.

Fique do seu tamanho e se dê o direito de ser grande. Assumir-se inteira é desobedecer e, para mim — aprendi com Gal Costa — é pra isso que a gente nasceu.

3 responses to “Lições de camarim com Maria Bethânia e Gal Costa.”

  1. Avatar de Patrícia Diniz

    Ser do nosso tamanho é aceitar que somos peças livres do quebra cabeça da vida, que não tem forma definida, por justamente sermos peças únicas. As pessoas vivem tentando se encaixar e até se diminuem pra isso. Quando n verdade precisamos aceitar quem somos de verdade. Reflexão incrível! Parabéns!

  2. Avatar de Eduarda Silveira

    Incrível Carol!! Mais uma grande reflexão!! A gente nasceu simmmm pra ser muito mas muito grande!

  3. Avatar de Tamires Fernandes
    Tamires Fernandes

    Texto excelente. Uma inspiração para a reflexão!

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