Faça bem feito tudo o que você se propuser a fazer. A voz grita ao meu ouvido e eu sei de onde ela vem. Fui educada dessa forma, mas não sem consequências. Capricho e responsabilidade. Empenho e compromisso. Na pior das hipóteses, seja impecável; na melhor delas, perfeita. Dizer que discordo da maneira rígida como fui ensinada a lidar com meus compromissos seria uma grande hipocrisia. Dizer que não me trouxe questões profundas e traumas seria mentira. Sou uma entusiasta da busca pela excelência. Isso também é meu.
Não à toa, nasci no dia 4: o número da ordem, da disciplina, da estrutura e do Imperador. Existe um fascínio nos meus olhos pela evolução, pela melhoria, por me superar em algo — ou em tudo. Escrevo orgulhosa e sintomática.
Se, assim como eu, você foi a “filha que não deu trabalho”, falhar pra você não chega nem a ser cogitado. Principalmente por você mesma. Da sua parte, espera-se muito. Na infância, quando deveria estar experimentando a vida com curiosidade, se permitindo errar, falhar e ganhar resistência para tentar novamente, talvez você estivesse se esforçando para não ser um fardo.
Para sua cabecinha ainda imatura, falhar significava perder o amor e a admiração dos adultos à sua volta. E todo o seu esforço vinha da busca pela admiração, enquanto ouvia aplausos por ser tão responsável e madura ainda tão nova. E, mesmo que você não tenha passado pelo mesmo, o fato de ser mulher já transforma o seu direito de errar em nulo. E, se errar, fogueira.
Já ouvimos muito por aí que “qualidade é melhor que quantidade” e a lógica capitalista nos obriga à produtividade desenfreada. Fazer muito e com muita entrega. Trabalhe enquanto eles dormem e etc. Mas existe uma armadilha invisível nesse padrão de excelência: quando a régua de expectativas fica alta demais, o medo paralisante senta em cima de tudo. E, dessa forma, o cérebro transforma qualquer tarefa em um bicho de sete cabeças, enquanto sonhos, projetos, mudanças e hobbies vão ficando pelo caminho.
E onde eu quero chegar com isso? Quero te convidar à permissão da mediocridade. Mas calma lá. Não vou te incentivar a ser péssima no que é importante pra você e te obrigar a sentir prazer nisso. A mediocridade aqui entra como uma possibilidade e não como uma regra. Quero te convidar a experimentar a vida de uma forma invertida. Fazer mais, com menos afinco. Parece maluquice? Pra mim também. Enquanto escrevo, rio das minhas próprias palavras e da minha tentativa de acreditar nelas.
Mas existe uma lógica por trás disso: o mínimo constante gera mais impacto que o máximo de vez em quando. A ansiedade de ter que dar 100% te impede sequer de tentar. Porque você aprendeu que só pode ser amada e admirada se não falhar. E o medo de “não ser boa o suficiente” te leva pra lugares delicados, inclusive para o da indignidade de afeto.
Meu convite hoje é que, sendo impossível silenciar essa voz que ordena perfeição o tempo todo, você pelo menos consiga abaixar o volume dos gritos na sua cabeça. Você pode dar menos de si e, ainda assim, evoluir e se desenvolver. A diferença é que, enquanto se doa menos a uma tarefa, se abastece de tantas outras que ficam empoeiradas naquela gaveta do “quando eu estiver pronta e puder dar 100% de mim, eu faço”. E, com esse crivo alto, você quase nunca se sente pronta, porque só de pensar em dar tanto de si, fica mais fácil deitar um pouco e rolar o feed.
Esta semana comecei algo novo. Me aventurei em um esporte pelo simples prazer do movimento. Quando me vi errando um milhão de vezes a mesma coisa, lembrei de uma frase libertadora: “ter um hobby é ter o direito de ser ruim em alguma coisa”. Mas, para além do hobby, a gente pode sim ficar amiga dos inícios vulneráveis. Ficar em paz com a curva de aprendizagem. Começar ruim e se desenvolver no caminho. Ficar amiga do longo prazo, lembra? Entender que de hoje pra amanhã não existe no caminho da evolução. E, mesmo falhando, você pode sim ser amada. Principalmente por você mesma.
Durante um tempo, nas consultas de tarot, quando surgia o Cavaleiro de Ouros em uma tiragem, eu sentia que era pra mim. Ao sacar a carta e dar de cara com ele, eu virava os olhos. Um homem parado, em cima do seu cavalo com uma grande moeda dourada na mão. Ele me intrigava, me incomodava — afinal, é considerado o cavaleiro mais “lento” de todos. Mas ele nos ensina lições maduras sobre a vida. Ele nos fala sobre diligência, tempo de maturação e esforço contínuo. Ele é um convite à persistência. Um chamado para começar pequeno e deixar o caminho conduzir ao passo seguinte.

A ideia aqui não é propor uma vida ilusória em que é possível fazer tudo a seu próprio modo. Isso seria fantasioso e pouco aplicável. Mas quero te lembrar — enquanto lembro a mim mesma — que o ciclo da autoconfiança começa no primeiro passo. Não existe autoconfiança construída apenas no pensamento positivo. Existe um corpo experimentando e um cérebro recebendo um reforço positivo consequente da ação.
Você nunca se sente pronta porque quer ser perfeita. Você aprendeu a rejeitar o processo e exaltar o resultado. Existe uma recusa ao aprendizado, porque aprender envolve erro, desvio de rota, frustração e angústia. E, bem, nós já sabemos: você não tem permissão para isso. Mas, se a permissão não vem do outro, pode muito bem vir de você mesma.
Silenciar essas vozes é também questionar algumas crenças que foram introjetadas em nós. É acolher a menina enquanto impulsiona a mulher. É saber dar nome aos sabotadores, separar o que é seu do que é do outro. O que você concorda ou discorda sobre si mesma. Diminuir a régua de expectativas é se permitir fazer o que dá pra ser feito e, ainda assim, entender que algo está sendo construído. Colocar o famoso tijolinho e confiar nessa construção. É criar novas sinapses e aumentar o volume das vozes que impulsionam — lembrando sempre que disciplina sem desejo é punição.
Você nunca se sente pronta porque não enfrenta o medo de errar. E quer ser perfeita de hoje pra amanhã. Vive presa a uma ideia sobre si mesma e segue se idealizando. Segue acreditando em uma versão que não se sustenta na vida real. Não uma versão pior, mas uma versão real. Você insiste em brigar consigo mesma, focar nas suas falhas e se autodepreciar porque não alcançou a meta incompatível que colocou para a pessoa que você consegue ser hoje.
Você colocou a régua lá no alto. E então você paralisa esperando a hora certa. Além disso, você espera que alguém te entregue a certeza e a garantia nas mãos. Mas elas nunca chegam — porque não existe nem hora certa e muito menos caminho garantido.
A autoconfiança não nasce com você sentada repetindo pra si mesma “eu posso, eu consigo”. Ela nasce do movimento, da tentativa, da permissão para falhar. O convite é simples e difícil ao mesmo tempo: permita-se ser suficiente, e não impecável. Se a perfeição paralisa, a mediocridade liberta. Então escolha começar, ainda que pequeno, ainda que torto. Deixe seu eu real guiar o que é possível e confie no longo prazo. Se você pode, eu também posso. Nós podemos juntas. Faço isso por vocês e por mim também. Sigamos.


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